Uma jornada de razão, fé e verdade

Um caminho de investigação do A ao Z

Um roteiro lógico, passo a passo, para abordar os ensinamentos islâmicos com racionalidade, clareza e propósito.

A Ponte

A prova racional da profecia do Mensageiro Muhammad (S)

Em resumo

A razão comprova a veracidade da profecia do Mensageiro Muhammad PBD através do testemunho intrínseco do Alcorão: a sua coerência lógica, o seu desafio permanente, a sua concordância com a razão e a natureza inata, e o facto de ter surgido de um ambiente que, por si só, não explica este salto cognitivo.

No contexto do sistema cognitivo doutrinário, e depois de a prova filosófica nos ter conduzido, nos estudos anteriores, à demonstração da «necessidade do beneplácito divino» e da obrigatoriedade dos mensageiros e profetas () como mediação de orientação entre o Criador e a criatura, deparamo-nos hoje com o passo cognitivo seguinte: como demonstrar que o Mensageiro Muhammad é aquele exemplar verdadeiro da mensagem derradeira?

Neste estudo, e neste espaço, fundamos uma metodologia rigorosa que se apoia na prova racional demonstrativa emanada do cerne do Alcorão () ou formulada em seu favor, afastando-nos por completo da argumentação pelos milagres sensíveis e materiais ou pelas variáveis experimentais.


A abordagem epistemológica: por que a prova racional e não outra?

Para que se esclareça o percurso deste estudo, é preciso traçar os limites epistemológicos do método adotado por meio dos seguintes pontos:

1. A diferença entre o milagre sensível e a prova racional segundo a teoria do conhecimento

O milagre sensível e material — como a salvação de Abraão do fogo, a abertura do mar para Moisés, ou a ressurreição dos mortos por Jesus — são sinais temporais e espaciais que perecem com a morte de suas testemunhas, e que se convertem, para as gerações posteriores, em “notícia histórica”, a qual, por sua vez, necessita de comprovação e de autenticidade de transmissão.

A prova racional e cognitiva presente no Alcorão, porém, é um argumento permanente, que atravessa as épocas, dirige-se directamente à razão humana em cada era, e oferece um testemunho de veracidade intrínseco que não envelhece, que a razão vê com os próprios olhos em todo tempo e lugar.

2. Por que excluímos a prova experimental e sensível?

Neste estudo não adotamos a prova experimental e sensível; não por não crermos em seu valor, mas porque a prova racional é mais forte e mais firme, em grau, do que a prova experimental e sensível. Os sentidos podem errar e sujeitar-se ao engano, como o engano da vista, e a experiência está condicionada às circunstâncias de seus instrumentos e à relatividade de seus resultados, ao passo que os juízos racionais evidentes e demonstrativos — como o princípio da não contradição e o da causalidade — são regras categóricas e absolutas, que não mudam com a mudança do tempo e do lugar.

3. Nossa posição diante das pesquisas de “inimitabilidade científica” no Alcorão

Com base no que precede, não nos apoiaremos, neste estudo e neste espaço, nas pesquisas do chamado “milagre científico”. Essa nossa exclusão não parte da negação de que existam indícios e inimitabilidades científicas no Livro de Deus, mas do fato de crermos que introduzir o método experimental mutável na interpretação do texto alcorânico fixo encerra um grande risco cognitivo e uma aposta contra a credibilidade da argumentação.

A teoria científica e a experiência estão em mudança contínua, e o que a ciência comprova hoje pode revelar-se errado no futuro; e ligar o absoluto da verdade a uma variável experimental é perigoso. Além disso, afirmar categoricamente que determinado versículo fala com precisão dessa inimitabilidade científica contemporânea é uma projeção conjetural que traz consigo um risco, ao contrário da razão, que se distingue pela firmeza e pela categoricidade.

4. A centralidade da razão na responsabilidade religiosa e no culto

Nossa dependência da razão nasce de ser ela o pilar fundamental da legislação e da prestação de contas do ser humano; nas tradições transmitidas dos Ahl al-Bayt (), a família da profecia: “Deus é cultuado por meio da razão”.

Entre os indícios lógicos claros da centralidade da razão, está o fato de que, se o ser humano perde a razão por doença ou loucura, decai por completo dele a responsabilidade legal; ao passo que aquele que nasce privado de um sentido — como quem nasce sem o sentido da audição, da visão ou do olfato — não perde a responsabilidade, mas o Legislador o interpela conforme sua capacidade cognitiva. A razão é, pois, a raiz do discurso e da responsabilidade, e, por isso, deve ser ela o juiz na demonstração da própria mensagem.

Síntese da metodologia cognitiva do espaço

Esse método não significa negar os milagres ou as demais sutilezas do Alcorão, mas, para firmar os alicerces da doutrina, adotamos uma equação clara: usar a prova racional para demonstrar “o princípio”, isto é, a profecia geral e específica e a não contrariedade à lógica; e usar a prova textual para demonstrar “o exemplar” e os detalhes do oculto, depois que a razão se render por completo à validade da fonte e a que ela procede de Deus, o Sábio.


A isenção do Alcorão de contrariar a lógica, segundo os filósofos xiitas

O xeque al-Mufid (336–413 H / 948–1022 d.C.), o eminente Nasir al-Din al-Tusi (597–672 H / 1201–1274 d.C.) e o Allamah al-Hilli (648–726 H / 1250–1325 d.C.) partem de um princípio cognitivo decisivo: “A razão é o argumento interior e a primeira balança pela qual se conhece a própria validade da profecia; se fosse admissível que o Alcorão contrariasse a razão em suas evidências, ruiria a confiança no Alcorão e na razão ao mesmo tempo, e a religião se dissiparia desde a base.” Para impedir esse colapso cognitivo, eles formularam as seguintes regras e provas:

1. A prova da “impossibilidade de impor o insuportável” (o xeque al-Mufid)

O xeque al-Mufid (que Deus esteja satisfeito com ele) fundou a equação de que o discurso alcorânico se dirige aos responsáveis, e o responsável há de ser, necessariamente, racional.

  • O raciocínio lógico: o xeque al-Mufid entende que a razão julga ser reprovável que o Sábio peça aos Seus servos que creiam no que a razão declara impossível, como a reunião dos contraditórios ou a existência de um associado ao Criador que O iguale na essência; pois pedir que se creia no impossível é “impor o insuportável”, o que é reprovável racionalmente, e Deus é isento de toda reprovação.

  • O modo da demonstração: com base nisso, al-Mufid determina que tudo o que consta no Alcorão dos versículos de sentido aparente que o ignorante possa supor contrários à razão — como os versículos da assimilação e dos membros, tais como:

“a mão de Deus”.

ou:

“O Clemente, que se assentou sobre o Trono” [Ta-Ha: 5].

são versículos que devem ser interpretados e julgados conforme o texto decisivo e racional, para concordar com a transcendência absoluta. Em sua verdade e essência, o Alcorão é isento de qualquer colisão com a lógica.

2. A prova do “bem e do mal racionais e a preservação da sabedoria divina” (Nasir al-Din al-Tusi)

No livro Tajrid al-I’tiqad, tido como a obra de referência na filosofia teológica, Nasir al-Din al-Tusi — e o célebre comentário do Allamah al-Hilli — formulou uma prova assentada na negação da inutilidade nos atos de Deus, o Altíssimo:

  • O raciocínio lógico: a razão apreende, de modo independente, antes da chegada da lei revelada, a beleza da justiça e a fealdade da opressão. E como Deus é o Sábio absoluto, é impossível que Ele pratique o reprovável ou o ordene.

  • O modo da demonstração: quando chegamos ao Alcorão Sagrado, encontramo-lo em concordância exata com esse juízo racional independente; ele nega a Deus a injustiça de modo absoluto:

“E Deus não deseja injustiça alguma para os servos” [Gháfir: 31].

e torna a obrigatoriedade da justiça um juízo geral. Al-Tusi e al-Hilli demonstram que a concordância do sistema legislativo do Alcorão com o sistema moral e racional independente do ser humano é uma prova da veracidade deste Livro; pois, se fosse de outra procedência que não Deus, seria admissível que contivesse legislações reprováveis à razão ou contrárias à lógica, e o fato de estar isento disso comprova sua procedência divina.

3. A regra “a razão é a raiz da transmissão” e a impossibilidade da contradição (o Allamah al-Hilli)

O Allamah al-Hilli estabeleceu uma fundamentação epistemológica rigorosa para regular a relação entre a razão e o Alcorão, esclarecendo o grau de cada um:

  • O raciocínio lógico: só conhecemos a veracidade do Alcorão (a transmissão) depois que a razão nos comprova, primeiro, a existência de Deus, Seus atributos como a sabedoria e a veracidade, a impossibilidade de a Ele se atribuir a mentira, e a comprovação do milagre do Profeta . A razão é, pois, “a raiz e a escada” que nos conduziu à fé no Alcorão.

  • O modo da demonstração: diz o Allamah al-Hilli: se o Alcorão trouxesse um texto que contrariasse a razão explícita e suas regras categóricas, e nos pedisse que antepuséssemos a transmissão à razão, teríamos anulado a razão, que é a raiz. E, anulada a razão, anular-se-ia, por consequência, tudo o que a razão comprovou, inclusive o próprio Alcorão. Essa contradição cognitiva é impossível. Assim, o Allamah al-Hilli demonstra que o Alcorão é isento, na existência e na legislação, de contrariar a lógica e a razão; pelo contrário, é seu confirmador e nela se apoia.

4. A distinção entre “os impossíveis da razão” e “aquilo que a razão não alcança” nos três sábios

Esses eminentes concordaram em separar as questões cognitivas para proteger o texto e a lógica:

  • Os impossíveis da razão: são as coisas rejeitadas logicamente por si mesmas, como algo ser existente e inexistente ao mesmo tempo. Al-Mufid, al-Tusi e al-Hilli afirmam categoricamente que o Alcorão é totalmente isento desses impossíveis.

  • Aquilo que a razão não alcança: são as questões do oculto, superiores, que a razão é incapaz de alcançar sozinha, sem auxílio, como a estrutura detalhada da ressurreição, do istmo (barzakh) e das realidades do Reino celeste. Aqui os filósofos determinam que o Alcorão não contraria a razão, mas a supre com conhecimentos que ultrapassam sua capacidade exploratória independente, e a razão os aceita porque caem no âmbito do “possível existencial” e não no âmbito do “impossível lógico”.


1. As provas racionais mencionadas “no” cerne do Alcorão e como ele se dirigiu ao outro

O Alcorão Sagrado comprovou a validade da mensagem em seu discurso com o outro — fosse ele ateu, politeísta ou dos adeptos do Livro — por meio de uma metodologia que reúne a argumentação racional e a equidade moral, usando silogismos lógicos claros:

1. A prova da “biografia e da transformação súbita” (a prova da causalidade psicológica)

O Alcorão formula uma prova racional que se apoia no exame da biografia do Profeta antes da missão:

“Pois já convivi convosco durante uma vida, antes disto. Não raciocinais?” [Yúnus: 16].

  • O raciocínio racional: o ser humano é uma criatura submetida às leis psicológicas e à gradação cognitiva. O Profeta viveu entre seu povo quarenta anos (“uma vida”), sem que dele se tenha registrado mentira, sem que fosse conhecido por buscar liderança, e sem ter estudado filosofia ou retórica. A razão julga ser ordinariamente e psicologicamente impossível que um homem se transforme de repente, depois de quarenta anos de veracidade absoluta e serenidade, em mentiroso e ousado contra Deus, alegando a profecia, e traga um discurso que os eloquentes são incapazes de igualar, sem preâmbulos. Essa transformação súbita, não explicável materialmente, comprova racionalmente a existência de uma “causa externa ao sistema material humano”, que é a revelação (), o que comprova sua profecia.

2. A prova da “extensão do tempo e a ausência de discrepância” (a prova da coerência lógica)

O Alcorão formula uma regra racional rigorosa, submetida à crítica científica, para demonstrar sua fonte:

“Não meditam, acaso, no Alcorão? Se fosse de outra procedência que não de Deus, nele teriam encontrado muitas discrepâncias” [An-Nisá: 82].

  • O raciocínio racional: o pensamento humano está submetido à lei da mudança e da influência das circunstâncias psicológicas e ambientais. Se um homem compusesse um livro ao longo de 23 anos, em circunstâncias oscilantes entre fraqueza, guerra, migração, vitória, alegria e tristeza, seria racionalmente impossível que suas ideias não se contradissessem, que seus princípios não vacilassem ou que o nível de sua expressão científica e linguística não mudasse. O fato de o Alcorão vir com uma estrutura cognitiva e legislativa coerente, cujo fim confirma seu início, sem contradição alguma, é uma prova racional categórica de que sua fonte está além do alcance da capacidade humana, sujeita às influências.

3. A prova do “desafio à incapacidade, apesar da existência de motivos” (a prova da divisão exaustiva diante dos opositores)

Trata-se da célebre prova do desafio, formulada logicamente para interpelar os senhores da eloquência:

“E se tendes dúvidas a respeito do que revelamos ao Nosso servo, apresentai uma surata semelhante à dele e convocai as vossas testemunhas, em vez de Deus, se estais certos. Mas, se não o fizerdes — e certamente não o fareis…” [Al-Baqara: 23-24].

  • O raciocínio racional: esta prova assenta numa equação clara: se este discurso fosse humano, os homens são iguais em natureza e capacidade, e deveria ser possível aos demais homens trazer algo semelhante. Os politeístas árabes hostilizaram o Profeta com ferocidade, e tinham um motivo decisivo para anular seu apelo pela palavra, em vez de travar guerras e derramar o próprio sangue. A incapacidade total, historicamente registrada, de trazerem ao menos uma única surata, apesar da capacidade linguística e do forte motivo, é uma prova racional de que este texto está além do alcance da capacidade humana.

4. A prova da limitação exaustiva das possibilidades racionais (com os que negam o Criador)

Quando o Alcorão se dirigiu aos que negam a existência do Criador ou aos que renegam a mensagem, colocou suas inteligências diante de um exame lógico rigoroso, que limita as possibilidades e os obriga à verdade:

“Foram, acaso, criados do nada, ou são eles os criadores? Ou criaram os céus e a terra? Qual! Eles não têm convicção alguma” [At-Tur: 35-36].

  • O raciocínio racional: este silogismo limita as possibilidades a três, sem uma quarta, racionalmente: ou eles vieram do nada, sem causa nem criador — o que é falso pela evidência da razão, que rejeita o acaso absoluto e a afirmação de que algo exista sem causa; ou eles próprios criaram a si mesmos — o que é logicamente impossível, pois quem não possui algo não o pode dar, e o inexistente não cria um existente; não restando, categoricamente, senão a terceira possibilidade, que é a existência do Criador Sábio e a confiabilidade de Sua mensagem, concordante com a ordem existencial.

5. A prova da “mútua exclusão e da correlação existencial” (com os politeístas)

Em seu discurso com a pluralidade e o politeísmo, o Alcorão usou a lei “da coerência e da ordem” para demonstrar o monoteísmo e a validade da mensagem por meio de uma proposição condicional:

“Se houvesse nos (céus e na terra) outras divindades além de Deus, ambos já se teriam desordenado” [Al-Anbiyá: 22].

e aprofundou esse sentido com:

“…então cada deus se teria apoderado de sua criação, e uns se teriam sobreposto aos outros” [Al-Mu’minún: 91].

  • O raciocínio lógico: se houvesse para o universo mais de um regente e de uma vontade no grau da divindade, as vontades divergiriam — como um querer o movimento e o outro o repouso, ou um querer a vida e o outro a morte para uma dada pessoa —, o que levaria ou à incapacidade de um deles, anulando seu ser divino, ou à desordem das leis e à corrupção do sistema cósmico. E como o universo segue numa coerência geométrica constante, sem colisão, a razão julga a unicidade da causa criadora e, por conseguinte, a validade da mensagem do monoteísmo.

6. O denominador cognitivo comum, o exame histórico e a exigência da prova (com os adeptos do Livro)

Quando o Alcorão se dirigiu ao “outro religioso” (judeus e cristãos), apoiou-se numa metodologia de desconstruir a estrutura cognitiva comum e obrigá-los às regras demonstrativas:

  • A argumentação pelos livros anteriores: convidou-os a confrontar as verdades presentes em seus livros, que seu povo desconhecia:

“Dize: Trazei, pois, a Tora e lede-a, se estais certos” [Al-Imran: 93].

  • O apelo a um termo comum (a equidade filosófica): definiu um ponto de partida dialógico e equânime, apoiado na essência comum, que é libertar a consciência humana da sujeição a outrem que não Deus:

“Dize: Ó adeptos do Livro, vinde a um termo comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Deus…” [Al-Imran: 64].

  • A exigência da prova científica e a rejeição da conjetura: exigiu sempre dos adversários a prova científica:

“Dize: Apresentai as vossas provas, se estais certos” [An-Naml: 64].

e combateu o seguimento cego dos antepassados sem exame, reprovando os que seguem a conjetura e o palpite nas questões cruciais da doutrina:

“Não seguem mais do que conjeturas e não fazem senão inventar mentiras” [Yúnus: 66].

A prova (burhan), na terminologia dos filósofos, é o mais alto grau do silogismo lógico que conduz à certeza, e esse uso contínuo dos exames lógicos comprova que o Alcorão confia na razão humana como referência capaz de compreender a verdade.


2. As provas racionais apresentadas pelos filósofos muçulmanos sobre a validade da profecia do Selo dos Profetas (S)

Os filósofos e teólogos xiitas imamitas — como Nasir al-Din al-Tusi (597–672 H / 1201–1274 d.C.), Mulla Sadra (979–1050 H / 1571–1640 d.C.) e o Allamah Tabataba’i (1321–1402 H / 1904–1981 d.C.) — partiram de um exame racional da realidade da profecia derradeira por meio de provas e argumentos claros:

1. A prova do “analfabetismo do ambiente e o salto cognitivo” (a disparidade existencial)

  • O raciocínio racional: a razão e o filósofo observam “o volume das entradas comparado ao das saídas”. As entradas são o ambiente da Península Arábica: uma sociedade beduína, dominada pelo analfabetismo, pela idolatria, pela superstição e pelo conflito tribal, carente por completo de escolas, bibliotecas, academias de filosofia ou sistemas jurídicos codificados.

  • O modo da demonstração: as saídas são o Alcorão Sagrado, que trouxe um sistema legislativo, jurídico, econômico, judiciário e cognitivo integral, que rivaliza — e mesmo supera — o mais grandioso que produziram as civilizações filosóficas e jurídicas, como Roma e a Grécia. A razão julga impossível que um sistema mundial integral nasça de repente do ventre de um ambiente destituído de meios cognitivos; pois “quem não possui algo não o pode dar”. Esse enorme salto cognitivo é uma prova racional da existência de um auxílio do oculto (a revelação), o que comprova a profecia do Profeta .

2. A prova da “concordância da lei revelada com a natureza inata e a razão independente” (o testemunho intrínseco da veracidade)

Os filósofos imamitas partiram de sua condição de “adeptos da justiça” (adliyya), que reconhecem a regra do “bem e do mal racionais”:

  • O raciocínio racional: as leis e os sistemas que os homens estabelecem, por mais que se eleve sua inteligência, são inevitavelmente afetados por seu egoísmo, por seus vieses de classe ou por sua deficiência cognitiva, e neles aparecem lacunas que o tempo corrige e das quais a razão depois se desdiz.

  • O modo da demonstração: quando o Alcorão veio, veio confirmando os juízos racionais independentes; ordenou a justiça, a benevolência e o cumprimento do pacto, e proibiu a opressão, a agressão e as torpezas. Diz o Altíssimo:

“Deus ordena a justiça e a benevolência” [An-Nahl: 90].

Encontramos o conteúdo alcorânico edificado sobre o monoteísmo puro, isento de corporificação e politeísmo, em concordância exata com o que julgam “a razão prática independente” e “a natureza inata humana sã” (). A verdade só produz verdade, e a retidão do método e sua absoluta idoneidade para purificar a alma e edificar a sociedade são um testemunho intrínseco de que ele procede da fonte da verdade e da perfeição absoluta, o que demonstra a veracidade da profecia de quem o portou .

3. A prova da “impossibilidade da contradição entre a criação e a legislação”

Mulla Sadra (979–1050 H / 1571–1640 d.C.) parte da visão de que o universo e o Alcorão são dois livros de um único Autor:

  • O raciocínio racional: o sistema da criação (o universo) segue leis racionais, matemáticas e causais rigorosas que Deus nele depositou, e o sistema legislativo e cognitivo (o Alcorão) foi por Deus revelado como orientação aos homens. E como a fonte do universo e a fonte do Alcorão são uma única causa, que é Deus, o Sábio, é impossível, na sabedoria divina, que os dois livros se contradigam. A razão humana que lê as leis do universo é a mesma que lê os versículos do Alcorão, e a inexistência de colisão lógica ou existencial entre a realidade do universo e o Alcorão é uma prova de que a origem de ambas as propostas é uma só, o que comprova a validade da mensagem.

4. A prova da “transformação súbita e da coerência moral em meio às mudanças”

  • O raciocínio racional: o ser humano está submetido às leis da gradação psicológica, comportamental e social, e seus princípios e temperamentos são afetados pelas circunstâncias que o cercam, em altos e baixos. O Mensageiro maior permaneceu entre seu povo quarenta anos, nos quais foi conhecido como “o Veraz e o Fiel”, sem que dele se registrasse a busca de liderança ou a pronúncia de discursos legislativos ou filosóficos.

  • O modo da demonstração: é ordinariamente e psicologicamente impossível, no juízo da razão, que um homem se transforme de repente, depois de quarenta anos de serenidade e veracidade absoluta, em quem alega a profecia por temeridade e mente contra Deus, e depois se mantenha firme nessa alegação em meio a guerras, perseguição, cerco, vitória e fraqueza, sem qualquer mudança em sua conduta moral ou vacilação em seus princípios ascéticos. Essa firmeza total e essa transformação súbita demonstram racionalmente que o motor do Profeta não é um impulso humano pessoal, mas uma missão superior categórica, que o retirou do plano da escolha pessoal e o tornou amparado pela revelação divina.

5. A prova das “predições categóricas do oculto e a aposta política”

  • O raciocínio racional: o ser humano, por natureza, desconhece o futuro. E qualquer líder ou reformador que alegue falsamente a profecia é racionalmente incapaz de vincular o destino de seu apelo e de sua doutrina a profecias futuras categóricas e precisas; pois um único erro nelas basta para pôr fim ao seu apelo por completo e expô-lo diante de seus seguidores e inimigos.

  • O modo da demonstração: o Alcorão conteve predições categóricas do oculto, em circunstâncias extremamente complexas, como a predição da derrota dos persas e da vitória dos bizantinos em poucos anos:

“Alif, Lam, Mim. Os bizantinos foram vencidos na terra mais próxima; mas eles, depois de sua derrota, vencerão dentro de poucos anos” [Ar-Rum: 1-4].

e isso depois de os persas estarem no auge de sua força destrutiva e os bizantinos nos períodos mais sombrios de sua derrota; assim como a predição da conquista de Meca e da entrada dos muçulmanos na Mesquita Sagrada em segurança, estando eles em estado de fraqueza e perseguição:

“Entrareis, se Deus quiser, na Mesquita Sagrada, em segurança” [Al-Fath: 27].

A realização desses acontecimentos com uma precisão geométrica que não erra comprova, à razão do filósofo, que a fonte deste discurso está desligada dos limites do tempo e do espaço humanos, o que estabelece, com a certeza da razão e da lógica, que o Alcorão é a palavra de Deus e que a profecia de Muhammad é uma verdade firme.


Conclusão do estudo

Chegar à veracidade da mensagem de nosso Profeta maior, Muhammad , pela porta das provas racionais no Alcorão Sagrado, representa o auge da maturidade cognitiva e demonstrativa. Este estudo encarregou-se de esclarecer que o Alcorão não exige a “fé cega”, mas erige a razão em juiz e move-se no espaço da concordância absoluta com a lógica inata e as necessidades humanas.

A isenção do campo da argumentação das provas sensíveis temporárias e das oscilações do método experimental, pela exclusão da aventura da “inimitabilidade científica”, conferiu a este estudo uma firmeza sólida; demonstrou-se “o princípio” pela prova racional categórica e imutável, deixando à prova textual a tarefa de desenhar e determinar “o exemplar” e os detalhes do oculto.

E com base no que fundaram os grandes do pensamento — Nasir al-Din al-Tusi, o xeque al-Mufid, o Allamah al-Hilli e Mulla Sadra —, o Alcorão Sagrado permanece o milagre cognitivo perene, o testemunho intrínseco contínuo de que aquele que o trouxe é o Mensageiro derradeiro de Deus, amparado pela revelação divina, e o elo verdadeiro e permanente entre a terra e o céu.

O Alcorão não exige uma fé cega, mas faz da razão o juiz, e assenta a veracidade da mensagem sobre a prova, a coerência e a concordância com a natureza inata.