A Ponte
A profecia e a missão: a mediação existencial e o canal da orientação divina
A profecia e a missão são uma necessidade existencial e cognitiva; a sabedoria do Criador e a carência humana de orientação exigem a existência de um mediador infalível que conduza o ser humano da perplexidade ao caminho da perfeição.
Introdução: a primeira pergunta existencial
O ser humano distingue-se dos demais seres por possuir uma consciência de si que ultrapassa a mera dimensão biológica. É uma criatura «interrogante», submetida a uma inquietação cognitiva permanente que o impele, por necessidade, a buscar respostas decisivas para três grandes perguntas que definem a verdade da sua existência: de onde? onde? e para onde? (a origem, a finalidade e o destino).
A tentativa de responder a estas perguntas conduziu a humanidade, ao longo da história, a formular caminhos diversos. Contudo, a razão demonstrativa pura, ao percorrer com rigor as suas premissas, revela a inevitabilidade de uma linha de conhecimento e de um canal de comunicação que parte do Criador e desce até à criatura. Esta linha existencial é o que designamos por «profecia e missão» (profecia e missão mensageiraprofecia e missão mensageira — pronunciado ‘nu-BUW-wah wa ri-SAA-lah’ — النبوة والرسالة Pronúncia: Nubuwwa e Risala. Nubuwwa significa profecia: receber orientação divina de Deus. Risala significa missão de mensageiro: ser enviado para transmitir a orientação às pessoas. Um profeta pode receber revelação; um mensageiro recebe o encargo de comunicar publicamente uma mensagem e uma lei.), enquanto mediação necessária para realizar a finalidade da criação e para arrancar o homem dos limites da sua perplexidade e da sua deficiência natural rumo ao horizonte da orientação plena.
1. A prova da necessidade da missão (a carência humana e a graça divina)
A razão parte, ao demonstrar a necessidade da missão profética, de um raciocínio lógico que liga a “sabedoria do Criador” à “deficiência da criatura”, e que se manifesta em dois caminhos principais.
1. A prova da sabedoria e da finalidade (a negação da inutilidade)
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Primeira premissa: ficou estabelecido, pela prova filosófica, que Deus, glorificado e exaltado seja, é o Sábio absoluto, e do Sábio não procede o que é vão; todo ato Seu implica, necessariamente, um propósito e um fim.
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Segunda premissa: a finalidade da criação do ser humano é o alcance de sua perfeição cognitiva e moral, e a obtenção da felicidade eterna assentada no conhecimento do Verdadeiro Criador e em Seu culto.
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Terceira premissa: a razão humana, ainda que apreenda os universais (como a beleza da justiça e a fealdade da opressão), é deficiente e incapaz, por si só, de conhecer os detalhes do caminho que conduz à perfeição, de atravessar o muro da morte e de conhecer o oculto, o destino e o modo de aproximar-se de Deus.
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Conclusão: se Deus deixasse os homens sem orientação, ser-lhes-ia impossível alcançar a finalidade para a qual foram criados, o que anularia o propósito do Criador e conduziria à inutilidade da criação — algo impossível para o Sábio. Por isso, a razão exige a existência de uma mensagem divina que esclareça os marcos do caminho.
2. A prova da “unidade da fonte” e a rejeição do caos das religiões inventadas
A verdade existencial é uma e não se multiplica; o universo está edificado sobre uma ordem de projeto unificado e rigoroso. E como “a finalidade da criação” depende da vontade do Criador e não da criatura, a única instância habilitada a enunciar essa finalidade é o próprio Criador.
Se a questão fosse deixada aos homens para que formulassem seus ritos e suas teorias sobre a finalidade da existência, cada um legislaria segundo seus caprichos, suas ilusões e seu narcisismo, o que levaria a um relativismo mortífero e a um caos cognitivo generalizado, no qual a divindade se converteria numa ideia fabricada à medida do temperamento humano. Por isso, a sabedoria divina exigiu a existência de uma fonte oficial única e decisiva, que representa a palavra do Criador directamente, pela qual se interrompe a perplexidade das inteligências e se unifica a direção.
2. A profecia na balança da filosofia
A profecia e a missão divina não foram uma mera ideia teológica de transmissão, mas foram objeto de investigação dos grandes filósofos da história, que analisaram a sua natureza enquanto ponte entre o mundo do oculto e o mundo do visível.
1. Os filósofos gregos
Apesar de não terem sido contemporâneos de uma mensagem monoteísta abraâmica no sentido estrito, os grandes nomes da filosofia grega investigaram em profundidade o mecanismo de recepção da sabedoria superior e a mediação existencial para a orientação da humanidade.
Platão (cerca de 427–347 a.C.) (Plato)
Platão vê, nos diálogos “A República” e “As Leis”, que o sábio ou o legislador inspirado é aquele que consegue libertar-se da “caverna da matéria” e elevar sua espiritualidade e sua razão ao mundo das Ideias, isto é, ao mundo das verdades absolutas e eternas, para então retornar e ser mediador de orientação e de organização da cidade ideal.
No diálogo “Timeu”, ele propõe a ideia de que aquele que recebe a inspiração divina passa por um estado de “eleição e dissolução espiritual” que o capacita a ser uma espécie de “intérprete” (Hermeneus) da vontade do céu, traduzindo-a em leis que protegem os homens e reformam suas almas.
Plotino (cerca de 204–270 d.C.) (Plotinus) e o neoplatonismo
Plotino fundou a teoria da “emanação cósmica”, segundo a qual a existência brota e transborda do “Uno primeiro” (The One) de forma gradual, através das inteligências e das almas universais. Nessa doutrina, os profetas e os grandes sábios são vistos como aquelas raras almas humanas, dotadas de preparação, que possuem um “ímã espiritual” capaz de romper os véus da matéria obscura para receber a emanação luminosa directamente da Inteligência universal, e que então reemitem essa luz sob a forma de ensinamentos e orientação aos homens comuns, velados pela densidade da matéria.
2. Os filósofos ocidentais
Na época moderna e contemporânea, os filósofos do Ocidente investigaram a profecia como instrumento histórico e moral para ligar o Absoluto (Deus) ao relativo (o homem).
Gottfried Leibniz (1646–1716 d.C.) (Gottfried Wilhelm Leibniz)
Leibniz sustenta que Deus depositou na razão humana verdades morais e inatas, mas que as paixões desenfreadas e os apetites materiais cegam as inteligências comuns diante delas. Aqui sobressai, para Leibniz, a função da profecia e da missão divina como “acelerador e despertador histórico”: o profeta é a mediação que oferece a orientação e o alerta racional num molde claro e conciso, poupando à humanidade milhares de anos que teria passado tateando experimentalmente até chegar às leis morais fundamentais.
Johann Fichte (1762–1814 d.C.) (Johann Gottfried Fichte)
Fichte estudou o fenômeno da profecia sob o ângulo da “genialidade espiritual”, e considerou o profeta uma figura central, dotada de uma sensibilidade absoluta e excepcional em relação à “vontade divina e moral”. Para ele, o profeta não é um mero transmissor de conhecimento, mas uma energia motriz e uma mediação existencial que se doa por completo e cuja consciência se desprende inteiramente dos interesses pessoais estreitos, tornando-se encarnação viva da lei moral suprema, capaz de sacudir as sociedades e de arrancá-las de seu estado animalesco rumo à elevação espiritual.
Samuel Coleridge (1772–1834 d.C.) (Samuel Taylor Coleridge)
Coleridge e os filósofos da corrente espiritualista distinguiram dois graus de consciência: o “entendimento lógico estreito” (Understanding), comum a todos os homens, e a “razão universal e abrangente” (Reason), que é a visão penetrante. Coleridge sustenta que o profeta é a mediação suprema da orientação porque desfruta dessa “razão universal” no auge de sua pureza, o que o torna capaz de ver a unidade subjacente à natureza e de conectar-se ao Criador, para então formular essa visão abrangente em ensinamentos e narrativas adequados à compreensão dos homens comuns.
3. Os filósofos muçulmanos
Os filósofos muçulmanos elevaram a teoria da profecia ao ápice da maturidade demonstrativa, interpretando-a filosoficamente por meio da estrutura da metafísica e da ontologia da existência.
Convém advertir, primeiramente, que “a razão” (“o intelecto”), no sentido técnico que lhe dão, não significa o sentido comum e corrente — o mero pensar, os cálculos mentais ou a inteligência cotidiana do homem —, mas é “uma substância imaterial, uma luz existencial que subsiste por si mesma, que se eleva acima da matéria e que representa a fonte das verdades universais e existenciais”.
Al-Farabi (260–339 H / 872–950 d.C.)
Al-Farabi é tido como aquele que assentou a pedra fundamental da teoria filosófica da profecia; para ele, o profeta é o “chefe da cidade ideal” por mérito existencial. O profeta conecta-se ao “Intelecto Agente”, que é a substância espiritual e luminosa mediadora entre o mundo das realidades separadas e o mundo terreno, por meio de duas faculdades: sua faculdade intelectiva, que atinge o grau do “intelecto adquirido” — o mais alto grau de abstração intelectual, em que a alma se torna um espelho polido que se une às verdades superiores —, e sua faculdade imaginativa extraordinária, que reproduz os significados abstratos em imagens visuais e sonoras. Assim, o profeta é o canal existencial que traduz as verdades do oculto numa lei que orienta a coletividade.
Ibn Sina (370–428 H / 980–1037 d.C.)
Ibn Sina aprofundou essa proposta, demonstrando a inevitabilidade social e existencial da profecia. O homem não pode viver sem convívio social, o convívio requer uma lei (ShariaSharia — pronunciado ‘sha-REE-ah’ — الشريعة Pronúncia: Sharia. No islã, Sharia significa o caminho revelado do culto, da lei, da ética e da orientação prática. Não se reduz ao direito penal; inclui oração, família, justiça social, ética econômica, purificação e o modo de viver diante de Deus.), e a lei requer um legislador. Esse legislador deve distinguir-se dos demais homens pelo “intelecto sagrado”, que não é uma inteligência comum, mas uma faculdade existencial superior e uma luz divina que se derrama sobre a alma, permitindo ao profeta a “intuição das verdades universais” e o acesso aos resultados cognitivos de uma só vez, num piscar de olhos, sem necessidade de aprendizado humano nem de encadeamento temporal de silogismos lógicos, de modo que a emanação da orientação desça de Deus, através da razão do profeta, até a humanidade.
Suhrawardi (549–587 H / 1154–1191 d.C.) (autor da filosofia iluminativa)
O xeque Shihab al-Din al-Suhrawardi vê que a profecia é o ápice da “divinização e da iluminação luminosa”. Para ele, a razão é uma luz imaterial, e o profeta é aquele cuja alma se libertou do crepúsculo e das trevas da matéria, de modo que resplandeceram em seu coração as luzes das “Luzes dominantes” e do mundo do Reino celeste. Para ele, o profeta é o sábio divinizado que reúne o rigor da prova racional e a contemplação iluminativa directa, sendo a mediação da luz que dissipa as trevas da ignorância no mundo da criação.
Ibn Arabi (560–638 H / 1165–1240 d.C.) (autor da escola do gnosticismo filosófico)
O Grande Xeque é o verdadeiro fundador do conceito de “Ser Humano Perfeito” (Ser Humano PerfeitoSer Humano Perfeito — pronunciado ‘al-in-SAAN al-KAA-mil’ — الإنسان الكامل Pronúncia: al-Insan al-Kamil. É a pessoa cujo intelecto, alma, caráter e receptividade espiritual alcançam a mais alta perfeição humana. Na filosofia e na mística islâmicas, o Profeta é o exemplo supremo desse grau: plenamente humano exteriormente e interiormente ligado à orientação divina.) em seu âmago filosófico e existencial. Para ele, o Ser Humano Perfeito não é uma pessoa meramente “virtuosa ou moralmente educada” no sentido imediato, mas o “cosmos totalizador e a versão resumida de toda a existência”; é o único ser que mereceu ser um espelho no qual se manifestam “todos os nomes e atributos divinos”. A profecia e a missão divina, para Ibn Arabi, são a manifestação dessa determinação; o profeta é o Ser Humano Perfeito que representa o istmo e a mediação absoluta entre o Verdadeiro (o Criador) e a criação (os seres), e sem ele não se sustentaria a ordem da emanação e da orientação neste mundo.
Mulla Sadra (979–1050 H / 1571–1640 d.C.)
Na escola da “Filosofia Transcendente” (Filosofia TranscendenteFilosofia Transcendente — pronunciado ‘al-HIK-ma al-mu-ta-AA-li-ya’ — الحكمة المتعالية Pronúncia: al-Hikma al-Muta'aliya. A Filosofia Transcendente é a escola desenvolvida por Mulla Sadra. Ela une filosofia racional, teologia corânica e intuição espiritual, e é conhecida por doutrinas como a primazia da existência e o movimento substancial.), Mulla Sadra fundiu essas visões, demonstrando que o profeta é o “Ser Humano Perfeito” que percorreu as etapas da jornada existencial através das “quatro viagens intelectuais”. Depois de viajar com as verdades da criação ao Verdadeiro, ele retorna, em sua última viagem, do Verdadeiro à criação com o Verdadeiro, portando a revelação e a legislação. Para ele, o profeta representa o cume do desenvolvimento e da intensificação existencial do ser humano, cuja razão e alma se unem ao mundo superior numa união verdadeira, de modo que seu interior se torna celeste e imaterial e seu exterior humano e material, e seus atos e legislações passam a ser extensão directa da emanação divina e de sua orientação para aperfeiçoar as almas humanas deficientes.
3. A verdade da distinção existencial do Mensageiro (desconstruindo a ilusão do “carteiro”)
Advertência metodológica e conceitual: é preciso assinalar, com precisão, antes de adentrar os detalhes deste capítulo, que a análise filosófica e demonstrativa aqui não gira em torno da pessoa do Profeta Muhammad PBDPBD — pronunciado ‘sal-lal-LAAH-u alayhi wa aalih’ — صلى الله عليه وآله Que a paz e as bênçãos estejam com ele e sua família. Esta expressão é usada após mencionar o Profeta Muhammad (PBD) como sinal de respeito e em obediência ao mandamento corânico de enviar bênçãos sobre ele. em particular, nem se restringe a ele como acontecimento histórico pessoal; a investigação incide, essencialmente, sobre “o posto da profecia e a estação da missão divina” como grau existencial e canal geral de comunicação entre o Criador e a criatura.
Essa estação existencial da “mediação” não é um grau inerte ou uniforme; todos os profetas e mensageiros reuniram os atributos e as qualificações essenciais que definem o posto da profecia, mas seus graus e suas estações existenciais são desiguais, conforme a natureza da gradação filosófica (tashkik); trata-se de uma realidade gradual, cujos graus variam em força e intensidade na proximidade e na perfeição cognitiva e existencial de um profeta a outro. Nessa gradação existencial, a perfeição humana atingiu seu ápice mais elevado e suas manifestações absolutas e plenas, acima das quais não há grau, na pessoa do Mensageiro maior e derradeiro PBDPBD — pronunciado ‘sal-lal-LAAH-u alayhi wa aalih’ — صلى الله عليه وآله Que a paz e as bênçãos estejam com ele e sua família. Esta expressão é usada após mencionar o Profeta Muhammad (PBD) como sinal de respeito e em obediência ao mandamento corânico de enviar bênçãos sobre ele., que foi o exemplar supremo e o modelo mais perfeito dessa estação geral.
Um dos erros cognitivos comuns e dos desvios superficiais em que incorrem algumas leituras — e que não se limitaram às propostas irreligiosas, mas se infiltraram até na consciência de muitos que declaram seguir o Mensageiro, e mesmo entre aqueles que foram seus contemporâneos, o acompanharam no tempo e no espaço e conviveram com ele — é imaginar que o Mensageiro é uma pessoa totalmente “comum” do ponto de vista existencial e intelectual, escolhida por Deus apenas por uma qualidade moral abstrata, a de “não mentir”, e que sua tarefa se restringe a receber a mensagem e transmiti-la com neutralidade seca, como um “carteiro” que porta uma carta cujo conteúdo não compreende e que não afeta a raiz de seu próprio ser.
Essa compreensão deficiente não é produto da época moderna, mas prolongamento de uma deficiência histórica antiga; o Alcorão Sagrado está repleto, em grande parte, do relato dos povos que trataram seus profetas com esse desprezo e essa ignorância da estação, sem qualquer apreço por seu grau existencial, insurgindo-se contra eles e presumindo superá-los em compreensão, conhecimento e experiência de vida meramente mundana, considerando-os simples homens ocasionais, iguais a eles nos instrumentos de percepção.
Essa confusão cognitiva nasce da falta de distinção entre a “humanidade aparente” do profeta — como corpo submetido às leis da matéria e que se move na órbita da vida cotidiana — e a “realidade existencial infalível” que o habilita a ser um istmo firme entre o Absoluto e o relativo.
Desconstruindo essa ilusão, a razão demonstrativa determina que o papel da mediação divina exige, necessariamente, qualidades essenciais superiores que ultrapassam a mera honestidade moral simples em seu sentido popular, e que se manifestam em três dimensões detalhadas:
1. A distinção existencial e corpórea (a autoridade cósmica)
A alma do Mensageiro não é como a dos demais homens, submetida por completo às naturezas da matéria e às suas leis; é uma alma que atingiu, em força luminosa e pureza espiritual, um grau ao qual a matéria exterior se submete e se sujeita à sua vontade.
Para explicar filosoficamente esse ponto: Ibn Sina, e com ele Mulla Sadra, sustentam que a alma humana comum foi dotada de um poder e de uma influência limitados; ela só é capaz de gerir, mover ou influenciar o seu próprio corpo (como mover a mão ou querer caminhar). A alma do Mensageiro, porém, em razão de sua intensificação existencial e de sua pureza superior, tem o alcance de sua influência estendido para além dos limites do próprio corpo, conectando-se à potência superior, de modo que se torna capaz de influenciar directamente a matéria deste vasto universo e seus elementos, com a permissão de Deus. Essa autoridade existencial da alma sobre os seres é o que se denomina “autoridade cósmica” (Wilaya takwiniyyaWilaya takwiniyya — pronunciado ‘al-wi-LAA-ya at-tak-wee-NIY-ya’ — الولاية التكوينية Pronúncia: al-Wilaya al-Takwiniyya. Na teologia filosófica xiita, designa uma autoridade concedida por Deus pela qual um servo aperfeiçoado pode influir na criação com permissão divina. Nunca é um poder independente ao lado de Deus, mas uma ação dependente de Sua permissão.).
Essa extensão da influência da alma é a profundidade filosófica com que esses dois filósofos explicam a ocorrência dos milagres; eles não são um mero espetáculo fora da ordem, mas efeito direto do poder de uma alma superior e perfeita, que ultrapassou os limites da capacidade dos homens comuns, à qual Deus concedeu o poder de controlar os fenômenos da matéria e de subjugá-la, para que isso seja um documento de autenticidade que ateste a veracidade da mediação e da orientação.
2. A distinção intelectual e cognitiva (o intelecto sagrado e a intuição instantânea)
Os homens comuns adquirem seu conhecimento por meio de instrumentos deficientes: os cinco sentidos, depois a abstração intelectual sujeita ao erro e o aprendizado gradual (das premissas às conclusões). O Mensageiro, porém, possui um grau intelectual excepcional, denominado filosoficamente “intelecto sagrado”.
Esse intelecto distingue-se pela intuição instantânea e directa; não necessita de um mestre humano nem do encadeamento temporal de silogismos lógicos. A consciência do Mensageiro conecta-se ao “Intelecto Agente” do oculto, e nela se gravam os conhecimentos e as verdades cósmicas, universais e particulares, de uma só vez, num piscar de olhos, com o mais alto grau de certeza e clareza cognitiva. É um intelecto abrangente, que transcende o tempo e o espaço, edificado para ser fonte do saber e não seu consumidor.
3. A distinção anímica e a imaginação superior (a formulação da revelação figurada)
O carteiro transmite um texto que talvez não compreenda; o Mensageiro, porém, é o tradutor e o maior compreensor. O maior desafio na missão é: como transmitir as verdades divinas abstratas e infinitas a inteligências humanas finitas e veladas pela matéria?
Aqui sobressai a força anímica e a imaginação extraordinária do Mensageiro. Ele recebe a revelação (WahyWahy — pronunciado ‘WAH-y’ — الوحي Pronúncia: Wahy. É a comunicação especial pela qual Deus transmite Sua orientação a um profeta, além do aprendizado comum, da conjectura ou da reflexão pessoal.) de modo espiritual e abstrato no grau de seu intelecto, e então sua imaginação superior e pura, isenta de ilusões e de inclinações psicológicas, realiza a “tradução e a conversão” desses significados superiores e elevados em imagens, sons, parábolas, narrativas e uma linguagem eloquente e inimitável, como a visão do anjo e a escuta do discurso.
Essa capacidade eloquente e anímica é o instrumento da orientação das massas; sem essa imaginação superior do Mensageiro, os saberes do oculto permaneceriam abstratos e isolados, e seria impossível orientar e conduzir a generalidade das criaturas.
Síntese do resultado: o Mensageiro é o “Ser Humano Perfeito” que Deus elegeu porque sua estrutura existencial — em intelecto, alma e constituição — é a única habilitada e preparada para suportar o peso da manifestação divina e do discurso do oculto. Ele representa o “istmo dos istmos” e a ponte existencial indispensável, para que a orientação desça do mundo do divino e do Reino celeste e seja moldada num molde humano capaz de conduzir o homem à sua finalidade existencial.
4. Por que o Mensageiro deve ser humano? (a prova da afinidade e do modelo)
Depois de demonstrada a necessidade do canal cognitivo e as qualidades excepcionais da pessoa do Mensageiro, a razão impõe a pergunta sobre o molde de sua encarnação exterior: por que o Criador escolheu para portador da mensagem alguém do gênero humano, em sua aparência, e não fez dele um ser oculto, como um anjo?
1. A prova da possibilidade e da imitação (o modelo prático)
A finalidade da missão não é lançar textos secos, mas convertê-los em modelo aplicável na realidade da terra. Se o Mensageiro fosse um anjo que não sente fome, não deseja, não se cansa e não adoece, os homens teriam necessariamente de objetar, dizendo:
“Tu fazes isso porque és um anjo luminoso; nós, porém, somos homens submetidos aos apetites do corpo e aos pontos de fraqueza da matéria.”
O fato de o Mensageiro ser humano no molde de sua vida cotidiana — pacientando, perdoando, combatendo seus instintos, sofrendo — comprova prática e racionalmente que o método divino e suas legislações são plenamente aplicáveis dentro dos limites da capacidade humana; e, assim, cai a desculpa e realiza-se a finalidade da missão, que é o modelo e a imitação.
2. A prova da comunicação cognitiva (a homogeneidade)
A recepção e a compreensão exigem homogeneidade e afinidade entre o emissor e o receptor. A natureza angélica, luminosa e pura, ultrapassa a capacidade do aparato sensorial e nervoso dos homens comuns, e vê-la em sua realidade causa o choque e o assombro fulminante que impedem a consciência e a assimilação.
Para que os homens se tranquilizem, escutem e compreendam o discurso sem terror ou espanto que arrebate as inteligências, foi racionalmente necessário que o portador da mensagem lhes fosse afim no gênero e na aparência; que comesse alimento e caminhasse pelos mercados, enquanto seu interior permanecia conectado ao Reino celeste.
5. O culto instituído por Deus e a inevitabilidade de uma lei unificada
Com base no exposto, a finalidade do Mensageiro e da mensagem é realizar o propósito da criação, que é o conhecimento de Deus. E para que esse conhecimento se traduza em conduta e se realize a perfeição, o culto é indispensável. Aqui sobressai uma regra racional e gnóstica profunda:
“Só conhece o caminho quem o percorreu e chegou, não quem permanece parado nos começos.”
Os homens, no início de sua jornada, estão velados pela matéria, pela ignorância e pelos primórdios do conhecimento sensível, ao passo que o Mensageiro é aquele para quem Deus rompeu os véus da matéria pela revelação, de modo que “percorreu e chegou” e testemunhou a verdade da ordem existencial. E como o culto é a proclamação da submissão ao Adorado, se o homem o inventasse por conta própria, estaria, na verdade, cultuando seu próprio capricho, suas concepções mentais limitadas e o que deseja; por isso, o culto deve ser “instituído” (recebido de Deus) no modo e na estrutura concebidos pelo Criador, conhecedor dos recônditos da alma e de seu bem, que os deu a conhecer ao Seu Mensageiro de confiança.
E para que esse “catálogo” cognitivo e cultual atravesse as gerações e os séculos sem se dissipar no caos das transmissões orais nem sofrer distorção com o passar do tempo comum, a sabedoria divina determinou que fosse vertido num molde de lei escrita, unificada e fixa em sua letra e em seu sentido por Deus, para ser uma constituição superior e absoluta a que todos se submetem e pela qual se unifica a direção — o que se concretizou nos livros celestes e nas mensagens confirmadas por uma inimitabilidade intrínseca, para serem o documento permanente e contínuo da veracidade da mediação e da preservação do instrumento da orientação.
Conclusão
Com base no exposto, este estudo demonstrativo e filosófico abrangente conclui que a profecia e a missão divina não são um mero opção religiosa ou um acontecimento histórico passageiro, mas uma necessidade existencial e cognitiva absoluta, exigida pela sabedoria do Criador e imposta pela carência da criatura.
O Mensageiro não é um mero transmissor automático ou “carteiro” escolhido apenas por sua honestidade moral, mas o “Ser Humano Perfeito” e a mediação plena, na qual se encontraram e se integraram os mais altos graus do intelecto sagrado e da distinção existencial com a emanação da revelação divina, para tornar-se o canal singular de comunicação que conduz a humanidade das trevas da ignorância e da deficiência da razão natural às luzes da orientação e da perfeição.
Pela mensagem, unifica-se a direção das inteligências; pela humanidade do Mensageiro, realiza-se o modelo prático; e pela lei da verdade unificada, repele-se o caos dos caprichos e das inclinações inventadas, para que se concretize, ao fim e ao cabo, a finalidade verdadeira e sublime da criação.
O Mensageiro não é um mero transmissor automático, mas o Ser Humano Perfeito e a mediação plena através da qual a orientação divina desce ao mundo do homem.